Os últimos dias de julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) trouxeram à tona não apenas o debate político, mas também um fenômeno social complexo: o estremecimento das relações familiares e de amizade. Desde o acirramento da polarização política no Brasil, notamos uma triste tendência de afastar pessoas que se amam por causa de suas escolhas políticas.
O que assistimos agora, com o desfecho do julgamento de Bolsonaro, é um momento que expõe a fragilidade de nossas conexões sociais. É como se, de repente, a ideologia política se tornasse mais importante do que laços de sangue e histórias de vida compartilhadas. A política, que deveria ser uma ferramenta para o bem-estar coletivo, transformou-se em um campo minado capaz de destruir lares.
Não é raro ouvirmos relatos de mesas de jantar em silêncio, grupos de WhatsApp desfeitos e convites para festas de família recusados. E tudo isso por conta de um posicionamento político. Para alguns, a defesa de uma figura ou de uma ideia é inegociável, e quem pensa diferente é visto como um inimigo. Para outros, a política não é o centro do universo, mas a imposição de um alinhamento ideológico acaba por forçar um afastamento doloroso.
A questão aqui não é defender um lado ou outro, mas questionar a primazia da política sobre o afeto. O que nos uniu, antes de qualquer eleição ou candidato, foi a história, a empatia e a capacidade de conviver com as diferenças. É possível discordar das posições de um amigo ou familiar sem que isso represente o fim do respeito ou do carinho. A vida é muito mais do que a dicotomia “direita x esquerda” ou “Bolsonaro x oposição”.
O momento exige uma reflexão profunda. Devemos aprender a ouvir sem julgar, a discordar sem ofender e, acima de tudo, a priorizar as pessoas que amamos em detrimento das nossas paixões políticas. Ignorar os gostos políticos não significa ser apolítico, mas sim ter a maturidade de entender que a vida em sociedade é construída sobre pontes, e não muros. Se não conseguimos manter a família e as amizades unidas, o que podemos esperar da nossa sociedade? É tempo de reconstruir as pontes e lembrar que o respeito mútuo é a base de qualquer relação humana.
Renato Andrade é cientista social formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e possui pós-graduação em Direitos Humanos. É um dos fundadores e editores do Portal Carioca.








